A condição psicológica de um jogador de futebol voltou a ser tema de conversa depois de, nesta segunda-feira, terem surgido rumores de que Sudakov estaria cansado do futebol. O próprio já teve oportunidade de tranquilizar os adeptos do Benfica e os seus dirigentes, assim como a seleção da Ucrânia, na qual é parte bastante importante.
Ora, com estes boatos seguidos de reações, há uma questão que se pode colocar e que ainda não foi respondida, sobre o impacto e a forma como tudo isto pode afetar o seu desempenho.
Recordando as palavras de Sudakov, "é normal sentir cansaço, tanto físico quanto emocional", ainda que o centrocampista do leste da Europa garanta que isso não significa que deixou de "amar o futebol" ou que pretenda parar de o praticar, sendo que está a trabalhar em si mesmo para "recuperar aquele prazer pelo jogo".
O Desporto ao Minuto foi à base do tema e falou, em exclusivo, com Sónia Soares Coelho, psicoterapeuta e psicanalista de profissão, para perceber o que poderá estar por trás desta condição quase 'súbita' do médio encarnado.
Uma das questões levantadas logo desde início foi o facto de a análise feita não se poderia basear no próprio camisola 10 das águias, uma vez que não há base de relação com o atleta e não é conhecido desta profissional.
Ainda assim, esta 'leitura' dos factos começou com um que parece óbvio, mas muitas vezes acaba por ser esquecido no panorama completo de Sudakov, que é o país onde nasceu e o que isso implica.
"Há aqui um contexto que eu acho que não pode ser ignorado. O Sudakov é ucraniano, vem de um país em guerra e a guerra não termina quando os jogadores entram em campo", começou por recordar Sónia Soares Coelho, antes de reforçar com um episódio que teve impacto na vida do jogador.
"Ainda há bem pouco tempo, foi notícia que ele teve a casa em Kiev destruída, num ataque onde estava a mulher grávida, a filha e a mãe. Portanto, há aqui todo um contexto que é muito importante, de uma ameaça real e que não é só simbólica. É uma ameaça real e concreta que nos leva para outra consideração que eu acho que é muito importante, que é a de que os jogadores não são só jogadores, mas também são pessoas", continuou.
"Isso significa que, para além da pressão que têm em campo, para além das dificuldades que possam ter em termos de serem postos a jogar ou não, eles têm toda uma panóplia de questões pessoais com as quais têm que lidar. Portanto, quando me falam de um jogador que se mostra esgotado, eu acho que isso tem muito mais que ver com um desgaste psíquico acumulado do que com a falta de vontade de jogar", pontuou.
"Não me parece que ele esteja cansado do futebol em si. Dá-me a sensação que ele pode estar cansado de estar a carregar em simultâneo a guerra, a insegurança, a responsabilidade familiar e também a pressão da elite desportiva. Mas a pressão da elite desportiva é um dos fatores da vida dele, pelo que não será só isso", indicou a psicoterapeuta.
Apesar de também haver outro ucraniano no plantel do Benfica - neste caso, Trubin -, há fatores a ter em conta para o facto de ambos lidarem com este assunto de forma aparentemente diferente, já que cada indivíduo é único e tem a sua personalidade.
"Acho que aqui também entra a personalidade de cada jogador. Mas imagine-se o que é ter uma mulher grávida, uma filha bebé e uma mãe numa casa que acaba de ser destruída por bombas… Eu não sei se o Trubin passou por isso também. Agora, certamente que o Trubin não será imune a este tipo de problemas. Talvez fale menos disso e talvez lide com isso de outra maneira", admitiu.
