Um Título E Muitos Pecados. O Legado Misto De Roberto Martínez Em Portugal É Assim: "Ciclo Ameaçador"

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Fim de ciclo na selecção nacional. Roberto Martínez está de saída do comando técnico de Portugal depois da desapontante campanha no Mundial2026. Na noite de segunda-feira, a equipa das quinas despediu-se da presente edição do Campeonato do Mundo com mais uma exibição pálida, acabando por sucumbir perante Espanha (0-1), e o até então selecionador nacional também não perdeu tempo para confirmar aquilo que já se esperava: vai mesmo sair. 

Anunciado como sucessor de Fernando Santos em janeiro de 2023, ainda com Fernando Gomes na liderança da Federação Portuguesa de Futebol, Martínez assumia mais uma seleção depois de ter passado pela Bélgica durante sete anos. 

O rótulo de treinador que havia desperdiçado a geração de ouro dos diabos vermelhos - a alcunha da selecção belga - era um dos pontos fracos de Roberto Martínez, mas tal não impediu a FPF de contratá-lo para dar um novo alento à selecção lusa. 

Três anos e meio depois, Portugal e Martínez estão prestes a assinar o divórcio e o balanço não é assim tão positivo. O treinador espanhol teve como grande mérito o facto de ter levado a seleção nacional à conquista da Liga dos Nações, em 2025, conseguindo bater Alemanha e Espanha nos dois derradeiros jogos, mas o legado acaba por ser demasiado curto.

Quando foi hora de disputar os maiores torneios, como o Euro2024 e o Mundial2026, o técnico de 52 anos natural de Balaguer, Lérida, ficou sempre abaixo das expectativas. 

No Campeonato da Europa, disputado na Alemanha, a seleção nacional foi eliminada nos quartos de final, frente a França, num jogo apenas decidido no desempate por grandes penalidades, mas antes disso também teve de passar pelo mesmo sofrimento para bater... a Eslovénia. 

Antes disso, a fase de grupos também não foi brilhante, com uma vitória suada diante da Chéquia a abrir o torneio e uma derrota inesperada frente à Geórgia. 

No saldo final da competição, Portugal somou apenas duas vitórias em cinco jogos disputados. Um registo que, aliás, transitou para o Campeonato do Mundo de 2026. 

Dois anos depois, e já com alguns novos elementos na equipa, a selecção nacional aterrou em Miami, nos Estados Unidos, com o estatuto de uma das grandes favoritas à vitória final, mas cedo se percebeu que tal não passaria de uma ilusão. 

Mais uma vez os resultados foram bem elucidativos: duas vitórias em cinco jogos e novo 'guia de marcha', desta feita, nos oitavos de final, naquilo que foi um falhanço total, tal como admitiu Pedro Proença - que antes do arranque da competição havia traçado como meta a chegada às meias-finais. 

Assim sendo, Roberto Martínez até fez pior do que Fernando Santos em 2022, no Qatar - a selecção nacional também perdeu por 0-1, diante de Marrocos, mas chegou aos quartos de final -, mas com a agravante de desvalorizar o primeiro lugar do grupo K, dizendo não ser importante vencer o apuramento.

Tal facto implicou que Portugal enfrentasse, na fase a eliminar, um percurso bem mais complicado do que se tivesse vencido o seu grupo, como seria de esperar. 

Os pecados de Martínez 

Na origem desta falta de sucesso de Roberto Martínez no Euro2024 e no Mundial2026 estão alguns pecados que marcam o seu legado pelos piores motivos.

CR7, o intocável 

O primeiro deles está directamente relacionado com a gestão dos estatutos na equipa. Em 2022, Fernando Santos abriu a porta da renovação, sentando, em pleno Campeonato do Mundo, Cristiano Ronaldo no banco para fazer entrar Gonçalo Ramos no onze - que respondeu com um hattrick nos oitavos de final frente à Suíça. No entanto, Martínez não quis aproveitar o caminho aberto pelo seu antecessor e recuou, privilegiando um modelo de jogo construído em torno de CR7. 

O que aconteceu neste Mundial2026 não deixou margem para dúvidas. Cristiano Ronaldo jogou todos os minutos da fase de grupos e só foi substituído no jogo dos 16avos de final, quando Portugal esteve à beira de eliminação. Mais uma vez, Gonçalo Ramos respondeu com golos, mas no jogo seguinte voltou ao mesmo, com o avançado que vai agora a jogar do AC Milan sem direito a minutos no adeus de Portugal. 

Os protegidos e as 'vítimas' de Martínez

Rapidamente se percebeu que Martínez tinha confiança total em alguns jogadores, independentemente dos respetivos momentos de forma. Rúben Neves, João Félix, Nélson Semedo ou Diogo Dalot, para lá de CR7, tiveram sempre lugar cativo, mesmo quando atravessavam fases sem jogar ou de clara desinspiração. 

Em sentido inverso, Paulinho, Ricardo Horta, Geovany Quenda, Rodrigo Mora e, mais recentemente, João Palhinha e Mateus Fernandes foram as vítimas de Martínez na seleção nacional.

O primeiro foi 'ignorado' da lista final para este Mundial, mesmo estando no estágio de março e somando números categóricos ao serviço do Toluca. Horta passou pela mesma situação e nem as exibições de encher o olho na I Liga, ao longo destes três anos, lhe valeram uma verdadeira oportunidade. 

Também João Palhinha, um dos jogadores com melhor rendimento no Euro2024, e Mateus Fernandes, que brilhou no West Ham ao ponto de o Tottenham o contratar por quase 100 milhões de euros, foram riscados da lista para o Mundial, sendo ultrapassados por Rúben Neves (Al Hilal) e Samu Costa (Mallorca), numa das decisões mais polémicas de uma convocatória com 27 jogadores.

Os casos de Geovany Quenda e Rodrigo Mora são distintos. Foram alvo de rasgados elogios, mas também nunca foram aposta. No entanto, há que ressalvar o momento em que o selecionador nacional decidiu não promover a estreia do extremo, que vestirá a camisola do Chelsea em 2026/27, que entraria na história do futebol português ao tornar-se no mais jovem de sempre a ser internacional A. 

Tudo aconteceu em novembro de 2024, quando Portugal foi até à Croácia disputar a última jornada da fase de qualificação para a Liga das Nações. O apuramento já estava garantido, mas nem assim Martínez deu um par de minutos a Queda, evitando que o recorde de Paulo Futre fosse quebrado. Isto numa altura em que o jovem extremo estava a 'voar' no Sporting. 

Estes casos são o reflexo de que na era Martínez o rendimento nem sempre pareceu ser o principal critério para representar a selecção, mas a gestão de grupo não fica por aqui. 

António Silva foi exposto

Ainda antes da partida para os EUA, Roberto Martínez concedeu várias entrevistas e ao jornal Record confirmou que António Silva tinha divulgado, sem autorização, o onze de Portugal frente à Geórgia, no Europeu. Isto já depois de o deixar de fora da lista para o Mundial.

A atitude de tornar o caso público valeu-lhe muitas críticas e poderá ter tido impacto na forma como o jogador do Benfica digeriu a ausência no Campeonato do Mundo.

Falta de ambição chegou aos jogadores

A fechar, e não menos importante, foi o discurso de pouca ambição que instalou na selecção nacional. Roberto Martínez descrevia todos os adversários com enormes capacidades e nos finais dos jogos parecia ter visto um jogo diferente daquele que todos os restantes espectadores tinham visto.

A forma como grande parte dos atletas reagiu à eliminação, apontando para as dificuldades de um Campeonato do Mundo e descartando responsabilidades, acabou por reflectir o discurso que Roberto Martínez foi mantendo ao longo do seu ciclo.

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